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Poetar-te

Poetar-te

V 1

Vai direito ao coração das casas. Da casa. Começa no mundo e termina bruscamente no centro das coisas amadas. Teima um percurso que é difícil, e antigo, percorre o espaço todo com um conhecimento de exaustiva precisão. Nem o lagarto verde, nem a parede umbilical, nem o ramo que pende (e que repete um ciclo de mistério), nem a inclinação que decifra os lugares, essa matemática das emoções transbordantes, nem o poço que o corrige – nada o faz vacilar nas suas coordenadas óbvias. Ele é o veio puro, onde a água e o quartzo predizem um futuro tremendo. Passa rente a tudo: aos homens que cantam, aos animais que lavram, às ruínas que persistem, às fadigas e às colheitas do sonho, ao rútilo riso, ao fardo da vida - e acaba na sala, onde uma jarra e uma irmã justificam todos os regressos.

10

Este pode ser o momento de uma síntese afectiva. Guardado pela distância, conservei os meios puros, as ferramentas da minha verdade. Aprimorei uma patologia emocional que não tem remédio. Fundei as fronteiras do reino onde, não muito tarde, hei-de capitular. O mundo equilibrou-me as pulsões contraditórias, mas separa o oposto uma linha frágil. Só um lugar, radiante, me conserva a possibilidade redentora. Por isso a ele regresso. Sempre. Por um caminho aberto na vertigem dos dias.

9

Estou no lado lunar das negações, colho um ouro sombrio na passagem dos dias, circula-me, negra de esplendor, a seiva bruta do meu tempo. Reino sobre as indiferenças, queimo no olhar o pudor absurdo da vida. Preparo-me, no aparato das grandes ideias, para as celebrações futuras da minha humanidade. Já sofro, mas ainda feliz de tanta aprendizagem. Canto, amo, busco, traio aqui e além. Dou conta das entranhas como um bicho doméstico que passo a levar para as horas de abjecção. Mas ainda assim é de luz que falo quando oriento os passos para um rio de pura intuição, que talvez seja um sonho, que talvez nem exista. Aprendo a descer aos infernos de alma limpa, abrindo, breve e frágil, a minha flor de noite imaculada.

8

Trazemos um amigo. E outro, e outro. Estamos no tempo das espadas profundas, das espadas que silvam, rosas súbitas, das espadas no sangue como rosas súbitas. Imprimimos a frase abrasadora sobre os pórticos onde habita a nossa intimidade. Um apelo da condição assumida pelo nosso jovem tempo. Sobre os pórticos, dentro do sono, dentro da febre, dentro da perplexidade. Estamos na vertigem da torrente, na origem do tempo, no coração do mundo. E cantamos alto, cantamos como quem afronta, com os amigos que trazemos. Eles sabem connosco as canções que nascem inteiras, absolutas, imunes ao tempo. Por isso as cantamos em segredo, como espadas. Como rosas súbitas, profundas.

7

Sonho o sítio das dálias, o espaço em bruto por onde o dia irrompe, o caminho da água sacrificial. O sítio onde a luz é uma pulsão interior a tudo, rompe pelas fendas da irrisão pura, cria a rosa múrmure de Abril. Tudo se passa a uma distância difícil de imaginar, no sítio da água retida para as explosões da Primavera, água verde, clorofila arduamente contida na cesta ritual. Tudo é essência, e voz que, sussurrada, me atravessa pela veia da condição unânime. Tudo. Nesse sítio que desagua na privação forçada das presenças. Nesse lugar que se transmuda, transforma, ganha a significação das formas abstractas. Nessa errância do tempo de que em vão me sustento. Sonho-o, ao sítio intacto, enquanto outra luz a pique me leva para um rio.

6

Devolve-nos uma pureza de rio sagrado, lava-nos até à brancura primeira. Por um acto que nunca é reflectido e por isso é inteiro, e é sublime. Por um acto que se acende na essência das coisas e as ilumina. Confunde-nos o sentimento materno quando põe o pão na mesa, quando nos oferece as horas do seu tempo. Quando acende nas brasas difíceis o nosso futuro e o nosso amor reconhecido. Quando enfrenta as águas dum rio gelado com as mãos roxas de sacrifício. Quando nos veste para a vida cuidando a essência dos nossos actos. Quando nega e quando enfrenta, quando se supera e quando rejubila. Quando alimenta sonhos comuns onde nós acrescentamos as harmonias do mundo.

5

Vem na carta o fio de água. Estou no quarto do fundo, o sopro da terra supro-o em mim com as vozes que me traz. Acabaram as castanhas (eram poucas e pequenas, não choveu), houve a esperada solução, uma desgraça, um princípio de mundo. Daqui é mais fácil ouvir todos os ruídos, todos os sopros, todos os encontros do sangue com o sangue. A não presença impõe, letra a letra, todos os significados, todas as razões do que se diz, todas as omissões. É um labor subterrâneo de decifração, em que cada significado se acrescenta à nossa gramática visceral. Vêm alguns rostos que agora são da matéria dos sonhos, algumas névoas que acrescentam rituais temores, frases desenhadas por sinceridades antigas. Tudo na carta: a ocupação dos lugares no espaço partilhado, a súbita angústia e a súbita alegria, o sol na parede branca, a mão que acaricia.

 

4

É o frio que define este lugar. É um lugar devassado, o vento percorre-o e preenche o, habita o seu abandono. A rua de pedra gasta, e escura, e húmida, agride suficientemente as almas que ainda há pouco desconheciam qualquer contrato social. Descemo-la, por isso, de olhos altos, a procurar um céu que não nos seja novo, o pássaro que alastre o seu voo para o antigo domínio, a fenda no dia onde florem jasmins. Surpreendentemente há casas. Algumas com pessoas às janelas, com vento, e frio, e abandono a percorrê-las como a um lugar devassado. Sorriem. Possuem a luz lenta duma chama que lentamente se extingue. A marca dos exílios inelutáveis, a aceitação monstruosa do tempo, a cinza das perguntas que nunca se fizeram. Sorriem por uma condição de assumida proximidade. E há flores, cães, vozes, aldrabas de ferros possantes, pátios, pedras gastas, cantigas, olhares, janelas sem tempo, tempos que fluem, árvores, caminhos. E um campanário com as horas dentro, porque nós, felizes, ainda não medimos o tempo.

 

3

 

Lá fora, na avenida, ruge, de Campos, a Ode Triunfal. A cidade excita-me um sentido novo, um frenesim insensato, um cansaço doloroso da sua presença imanente. Este rumor de massa em movimento é o cerco perfeito para o animal que veio à tona, absoluto, inocente, em liberdade. A invenção da luz prisioneira dos lugares é-me um sentimento de discricionariedade libertina. Tremo de enfrentar, nos dias que seguem, a revelação selvagem do que por ora intuo. As paredes brancas do quarto são de uma transparência tão alheia que descreio da sua existência. Recorro aos íntimos e profundos sítios que me guardarão para sempre. Regresso, todo, num brutal exercício de auto-compaixão, à carne e ao sangue originais, ao acto pleno, à feliz conjugação onde, para sempre, me guardo e me defendo.

 

2

Não há o espaço que conheço, mas o cerco do vazio. Um vazio concreto, sem a densidade das presenças, sem as vozes que trazem um nome, sem um rosto para os dias. O pensamento é longínquo e obsessivo naquilo que deixei. Difusamente rodeia-me um acervo de vidas em si, perturbadoramente distantes num espaço denso e povoado. Não há as identidades primeiras que a mera existência reconhece. Não há o corpus banal do correr dos dias agregado à carne e ao sangue e ao sentimento. Não há o descer lento da rua para os outros assobiando um refrão de descer lento na plenitude duma tarde. Dum domingo. Dum dia nomeado em que todos nos reconhecemos. Agora não há os tempos átonos da terra em que esperava os teus passos, às vezes para chorar verdadeiramente.

 

 

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