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Poetar-te

Poetar-te

7

As nítidas ombreiras. O risco irregular da cal, a exaltação do encontro. É neste ponto que se abre, dolorosa, a ferida crucial. É na cal contaminada. No verdete da chuva que se impregna e escorre. Lentamente, o verdete, o fungo nas madeiras nobres. Nas almas acossadas. Já houve aqui auroras permanentes que não souberam permanecer. Já houve aqui silêncios como os da terra, fundos e cheios de significado. Já houve admiráveis vozes que diziam tudo, mesmo o indizível que nos serviu de alimento comum. Já houve radicais belezas a passar pelos rostos, altares de alegria, rosas madrugadoras, festões de luz imaculada. A pedra exausta guarda ainda a presença dessas horas felizes. Num ponto ínfimo e descontaminado. Apesar da cal dolorosa, do verdete da chuva, das almas onde a evidência corrói toda a fundada esperança.

6

Começa agora a apropriação das fórmulas (o mito requer, aliás, a fórmula pura, é o momento expurgatório das outras verdades). Um pronome repete à exaustão o agudo momento da perda. Revisitamos o mundo com o olhar para dentro – e é dolorosa a apropriação alheia dos espaços reservados. Afinal, há caminhos inversos que nos esperavam há muito.

Começa agora a apropriação equívoca das fontes. A palavra, o momento, a grata recordação reservam-se para uma exposição que é mundana, e fere. As nossas almas reclamam o salário de um amor profundo, quantas vezes à distância de uma estranha renúncia – e as letras desse alfabeto maldito são o lume onde ardem as palavras antigas.

4

E há as paredes. Cegas. Maciças. Asfixiam. Contra a cal. Geram o poderoso impulso da liberdade. Quebramos contra elas cristais momentâneos. Babam-nos de feroz salitre, de impotência surda. Confundem-nos porque não explicam. Não abrem. São sugestivas para dentro, num sentido concêntrico. Impedem os outros lugares. Sugerem-nos, com a resistência bruta que lhes opõem. Aqui só a liberdade. Contra elas só a liberdade. Só o pensamento alodialmente feroz. Livre e feroz, bruto e feroz, tomado da ferociddae que arranca luz dos medos fundos. Aqui só a inteira humanidade que se alimenta do sangue fundador. Contra elas opomos caminhos abertos a pulso pela humanidade e pela liberdade. Pela condição primeira do pacto ôntico, pela humana sujeição ao sopro criador. Fazem-nos, as paredes. Cegas. Maciças. Impedem. Fundam, paradoxais, a liberdade.

3

Abre-se, pois, essa flor conjuntiva. Procura os lugares onde a vigorosa pulsão da vida cria sóis instantâneos. Um é junto ao lume, compreende o alimento, o fogo, as harmonias. É onde ferve a água lustral das comunhões, onde o antes e o depois são confinantes, onde a presença é um ouro preservado. Outro, conduz ao íntimo da casa, à secreta, lenta, permanente fábrica dos sonhos, ao labor uterino da vida. Fecha-nos. Remete as distâncias para a mera geografia da matéria, porque  impede e circunscreve. E porque, pacientemente, lapida no sangue o diamante intemporal. Antes, outro ainda, é o lugar desencontrado das premências. É onde rui, definitivamente, o dique das emoções, onde desaba toda a sofreguidão das torrentes. É um lugar que remete e antecipa, que mílímetro a milímetro nos devolverá a identidade inteira. Aí, mais tarde, sob um céu de ramas ancestrais, serão as palavras o selo que se quebra.

2

A jarra é de sécias dessa manhã. Ainda tocadas pelo halo quente da noite. Ainda virgens, ainda indecifráveis, ainda encharcadas de orvalho e vagar. Elas centram o mundo, dispõem-no para o que chega em coordenadas puras, assim definindo os domínios consagrados. Agora é tudo para dentro. O dom da palavra é para dentro. A fabulosa interacção do sangue, a explicação dos sítios, os passos medidos, o núcleo primitivo, são para dentro. Alguém há-de cantar. Dentro do silêncio.

Uma a uma as portas fecham-se. Delimitam do espaço interior o caminho que finda. A sua função congregadora é-nos familiar e propícia. Abrem para dentro. Preservam. Recriam o nosso íntimo universo, de cujo centro parte a luz irradiante.

 

V 1

Vai direito ao coração das casas. Da casa. Começa no mundo e termina bruscamente no centro das coisas amadas. Teima um percurso que é difícil, e antigo, percorre o espaço todo com um conhecimento de exaustiva precisão. Nem o lagarto verde, nem a parede umbilical, nem o ramo que pende (e que repete um ciclo de mistério), nem a inclinação que decifra os lugares, essa matemática das emoções transbordantes, nem o poço que o corrige – nada o faz vacilar nas suas coordenadas óbvias. Ele é o veio puro, onde a água e o quartzo predizem um futuro tremendo. Passa rente a tudo: aos homens que cantam, aos animais que lavram, às ruínas que persistem, às fadigas e às colheitas do sonho, ao rútilo riso, ao fardo da vida - e acaba na sala, onde uma jarra e uma irmã justificam todos os regressos.

10

Este pode ser o momento de uma síntese afectiva. Guardado pela distância, conservei os meios puros, as ferramentas da minha verdade. Aprimorei uma patologia emocional que não tem remédio. Fundei as fronteiras do reino onde, não muito tarde, hei-de capitular. O mundo equilibrou-me as pulsões contraditórias, mas separa o oposto uma linha frágil. Só um lugar, radiante, me conserva a possibilidade redentora. Por isso a ele regresso. Sempre. Por um caminho aberto na vertigem dos dias.

9

Estou no lado lunar das negações, colho um ouro sombrio na passagem dos dias, circula-me, negra de esplendor, a seiva bruta do meu tempo. Reino sobre as indiferenças, queimo no olhar o pudor absurdo da vida. Preparo-me, no aparato das grandes ideias, para as celebrações futuras da minha humanidade. Já sofro, mas ainda feliz de tanta aprendizagem. Canto, amo, busco, traio aqui e além. Dou conta das entranhas como um bicho doméstico que passo a levar para as horas de abjecção. Mas ainda assim é de luz que falo quando oriento os passos para um rio de pura intuição, que talvez seja um sonho, que talvez nem exista. Aprendo a descer aos infernos de alma limpa, abrindo, breve e frágil, a minha flor de noite imaculada.

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