Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Poetar-te

Poetar-te

10

Abandono-me ao futuro. E é um vácuo aberto na substância interior das coisas. Um medo espécie de sentença definitiva e cruel, uma penosa palavra e um cansado silêncio. Interpõe-se agora entre mim e a imaterialidade dos meus sonhos. Entre mim e o soluço que me naufraga, entre mim e a razão que não me acolhe os passos com que hesito. Agora é nesse abandono que recolho o que se salvou. Os incêndios que se guardam na sagrada lentidão das noites. As maçãs cujo odor é sempre um regresso aguardado. O clarão inimitável e cru do reencontro do sangue, puro idioma inscrito na vastidão dos sinais. O que se oculta nas palavras e cuja inteligência não descura a sua função primitiva, a osmose primordial dos objectos comunicantes. Abandono-me à ardente premência dos corpos em que habito. E é um fulgor e um frio, doravante.

9

O ginete do vento, o arco de fumo, o castanheiro verde, o exacto momento que resolve o ancestral conflito. A poeira, a nascente que se eleva do chão no centro do regresso, a coruja, o redil, a substância que funda, como uma fatalidade, todo o pensamento. O coração estreme, a oração como canto, a divina essência das aquisições deste dia, a conjunção das palavras a dizer, a silenciosa comunicação dos olhares, a agonia da luz que tudo presenciou. A aragem fina, o estremecimento (avatar dum futuro pressentido), o cão que nos segue, a proximidade, que alonga os silêncios, a reunião das fontes, a conquista lenta do que havemos de chamar noite, o início da casa em cada ínfima partícula de nós. A fábula que nos conta, a grata ficção do mundo.

 

7

O cansaço produzirá a sombra. Entre nós e a terra dista agora uma ínfima parcela da rotação solar. Junto à água, na sombra vertical do dia, pousará a mãe alimentadora o seu amor visceral. Com o pão ritual, com o vinho que arrefece no torpor dos limos, a fundadora presença do meio-dia arrogar-se-á de momento irrepetível. Abrirá em cada sulco esse fulgor das seivas violentas, em cada um de nós o lugar que propiciamos com a arte do nosso labor. Vaguearemos o olhar pela caligrafia dos instrumentos, pelo casual limite de horizontes que temos, pela vinha dissonante de verdes, pelo acaso fecundo que não adivinhamos – e outra claridade nos transportará, refeitos, para a comunhão perfeita.

 

6

Caminharemos na acidez da luz nova, pisando a terra virgem, no clarão que há-de restituir os nomes, as formas. Seremos a primeira cintilação da água, o frémito solar e diurno do abandono e do silêncio. Os pés sobre o pó produzido pela vibração elementar que tocou as coisas, que as fendeu como um dezembro de luz extrema. Amar assim é fácil e restitui o sentido a todas as escuridões passadas. Iremos a cantar, a incensar as mães, exaltados dessa pureza que nos é primordial. Lavaremos o rosto na água abundante das fontes que entretanto nasceram, os lábios possuídos da impronunciável palavra, do seu significado tão intenso que há-de amanhecer connosco. Saberemos o deus que não nomeia.

 

5

O sono. Procriador, húmido, generoso. Ás vezes exaustão de uma derrota nunca assumida. Interregno para que tudo recomece, morte a que só resiste o canto de água, como um sono que não dorme. Sono dos corpos, sono afundado na sua origem terrena. Sono de estrelas velozes, sono aceso por instantes de humanidade, sono de resignações insubmissas, sono que só tem presente e por isso é feliz. O sono, partilhado, fundo, merecido. Frequentemente acomodado aos tempos da terra. Horizonte provável de tudo, oficina de uma claridade nova, profusão incomunicável do rumor da vida. Sono selvagem e remoto, sono que adivinha o que está por dizer, fulgurante promessa na circulação interior da noite; sono que há-de abrir a ininterrupta rosa.

4

Vinham os animais beber no tanque – e a tarde era água a correr. Embalava-se a sede pura e frontal das crias com harpejos de tempo bastante. Lentamente, como convém aos actos propiciadores, às fundas respirações genuínas. Água e tempo corriam nas veias abertas pelo esforço trabalhado. Era antes de entrar nas casas, no sagrado, nas uniões fortíssimas dos elementos basilares. Alguns revolviam-se no pó ritual lembrando celebrantes antigos. Transpirados, expunham feridas vivas como lírios ardentes, nas espáduas um sangue sacrificial. Falava-se na língua do futuro, todos os passos o percorriam já, porque tudo ficara para trás. Havia agora a profunda marca dos afectos – e um silêncio que nascia da terra como coisa viva.

3

Enquanto, numa oficina de sombras, segue o tranquilo comércio com as coisas da terra. A extensão é quase geométrica, numa simetria de modos, num conforto potente, numa inscrição matricial definitiva. Um assobio ciciado vela pelo nosso futuro, melodia de cores castanhas, água lenta, sulco fundo em nós. Cada palavra, nunca por acaso, nos oferece a dádiva posterior dos silêncios construídos. Cada objecto, ali, se nomeia pela sua ancestral permanência, e é de cada vez novo, e é de cada vez tocado pela alegria, e é quente, e é lento, e é visceral: e é, como qualquer eternidade, o contínuo acto de permanecer. Todas as coisas preservam uma íntima luz que identifica. Apetece morrer.

2

Primeiro, escuto. A máquina do trabalho, um canto em surdina. Comove-me, esse canto, no lugar onde às vezes também se chora. É discreto e embala pensamentos de labor doméstico em que o amor não é coisa de somenos. Depois entro. Há um gato que dorme na melodia da meia tarde. O escrínio ocupa um espaço enorme, o da sua múltipla funcionalidade. Há tiras de trapos, panos alegres de um vestuário útil - embora subjacente a um amor intrínseco e que não necessita de expressão. O sol que entra é geométrico e profundo. Toca na dispersão das coisas, concede-lhes a alegria interior dos objectos concordantes. Abre-se entre nós, magnífica, uma flor de silêncio. Saio. Do lado de fora as sombras são felizes.

Mais sobre mim

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Favoritos

Arquivo

  1. 2015
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2014
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub