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Poetar-te

Poetar-te

III 1

Ainda não é a depurada síntese do tempo e da distância. Só o olhar aterrado, à volta, a saber o que se perde. A tua mão tão fria, agora. A casa que estremece, pedra a pedra. O silêncio dos animais, significando obscuramente algum prenúncio. As melancólicas vozes, os passos acordados, a cartografia dos nomes. Os pardais no olmo, a luz incerta.

Ainda não é a boca seca, a desorientada amargura das escuridões fundas. Só a implacável ciência do que nos vai morrer nas mãos impotentes. A porta do quarto onde as longas noites nos lembraram. O cabide com os chapéus, flores do teu cheiro. Todas as portas, uma a uma, que nos instituem herdeiros dos nomes. A pulsão para o mundo.

Ainda não é a palavra que conclui. Só a luz inquieta do dia que se eleva.

 

10

Admito as minudências a um grau que fere. Fixo os objectos com a memória do sangue, deixo-me tomar pelos seus graus de pureza, que queima. Percorro toda a casa com a memória futura do seu amor funcional, complexo, aberto para as zonas das combustões imprudentes, como inevitáveis: o tempo na madeira, o desgaste na pedra e nos rostos, o espaço escuro e frio nas emoções confinadas. Ah, minha casa onde toda a vida não morre, nunca morrerá! Minha virgem manchada de pecado alheio! Ainda não sei dos teus temores mais fundos, ainda és cintilação e água, ainda és intocada e rude, branca e livre, júbilo e esplendor. Deixo que me tomes. Cada parte de mim serás tu, íntegra e pura instância agregadora.

9

Chegou o frio. Ou é, ainda, só, o estremecimento da vida completa que finda e logo se inicia. Há paisagens devastadas que já tomam os sonhos, há um que outro desvario que importuna. Às vezes tremo. Procuro a penumbra. Amo, aqui e ali, solidões que não cansam antes saciam. É só um momento mas já deixa as suas pegadas de lodo e de escuro. Por isso a varanda, que é terra de ninguém na geografia doméstica, encerra um poder de síntese, o momento dos momentos, que na alma fixa para sempre o tempo de ouro. Lá pousa o resto do dia, a vibrante humanidade que a cerca, a ausência do futuro. A casa acaba ali. Para diante o deus polimórfico que me olha nos olhos, a fulgurante cintilação do que me é oculto.

8

Como Antígona ama, como Antígona afronta, é o que posso dizer. Não se poupa ao destino de irmã, cria no seu espaço uma avassaladora inocência. É quem ri e quem desfaz o nó das noites, tantas vezes atado pela predominância masculina. É a água pura dos seus olhos que nos devolve a imagem abrupta da nossa inconstância – e somos, nela, a mera consequência de um acto cósmico. Congrega, como a deusa, os númens subterrâneos para que a lei do seu pranto, e do seu canto, seja a lei imutável que nos reserva o futuro. Hábil, sabe de nós as veladas sombras, e a cada uma opõe o fulgor obstinado do seu amor.

O que canta, o que chora é sempre primordial. A água, por exemplo.

7

Vêm do dia excessivo. Guardadas por um silêncio espantoso. Às vezes esperamos que alguém derrube essa respiração suspensa do milagre. E o nosso amor aumenta. De mãos dadas, a palavra é então o mistério que nos ilumina, e os nossos olhos procuram-na. Uma palavra que entra pelos nomes adentro, que é o seu âmago, o seu significado indecifrável. Digo-vos esses nomes, os nomes dos nomes, a sua transparência última, o seu fervor único que povoamos de gestos antigos. Que fácil alegria! Como o nosso amor rejubila! É como uma arte ou uma vereda, ou como a floresta rubra onde algumas almas ensandecem. Mas que leveza nos trazem, as vozes, os nomes, colhidos na alta voragem do presságio!

6

É aqui que me sento. É aqui que ritmo a sucessão das gerações. É aqui que trabalho na rede que gera o crescimento. São pessoas em formação, convertidas ao meio, a floresta temporária onde escondo o futuro. É todo este canto de água, intermitente, é o número tosco que explica a oportunidade, é o radiante vermelho duma união para a vida. Esgotado, procuro no verso o capital humano das solidões que se fazem passo a passo; procuro, mais do que ofereço, a remuneração do labor antiquíssimo que, com zelo, adivinho. É aqui o prolongamento dos gestos, a génese familiar da circunstância, o bruto impacto da terra, elementar. É aqui o lugar das sombras, das malvas que atenuam toda a distância, da manta que sobre uma cadeira seca um fruto para Invernos luminosos. É aqui a cadência nobre das vozes submersas ainda assim capazes de belas frases comunicadas em absoluto silêncio. É aqui que compito, evoluo, me entrego: entre o canto de água e a casa que o recolhe.

 

 

5

Primeiro o medo, novo e inteiro. Depois o espanto – e a dolorosa consciência do medo e do espanto. Algo tardava como nunca. A boca amarga, o sangue calado – e a dura presença do mundo a refazer-se em cada coisa que não vinha. Pela primeira vez algo tardava. Já não era impaciência, nem desgosto. Já não era a rosa inicial abrindo o seu segredo sobre mim. Já não era o artefacto dos sonhos, a meticulosa cifra dos sonhos, a sonhada projecção duma realidade indistinta. Mas uma sombria desistência. Uma essencial tristeza que sabemos que fica. A semente que dorme no fundo desse mar imóvel onde cada naufrágio é o prenúncio do seguinte. O medo. Depois o espanto. Esse vento negro que sopra de um lugar inominado.

4

A plenitude do silêncio libertava o dia. Gotas de ouro caíam do sino, e as horas soavam no dia tão bonito e tão tranquilo que apetecia ficar ali a ler, sem mais nada que fazer do que ficar ali todo o dia a ler. Com precisão indolente, lenta e naturalmente, o campanário resumia o momento exacto, a calma cujo azul vergava apenas a uma identidade ainda a descobrir. (apud Proust, Em Busca do Tempo Perdido, Do Lado de Swann). E a paixão por tudo incendiava e consumia a matéria infinita dos sonhos.

 

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