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Poetar-te

Poetar-te

3

Abre-me o peito, Princípio. Sobe-me, como eu faço à ladeira, pulsão rara do Novo, último impulso de Mim perdido para o Outro. Leva-me à raiz do vento, da água escura e indivisa, da fremente explosão do fogo e da cor. Tudo há-de rebentar. Formar-se. Advir como coisa visível, fermento da matéria em bruto, individida. Saberei a forma das coisas, o feitio das sensações, a real vontade de te sentir. Esta é a minha Verdade e a minha Sina. Uma Fortuna ímpar. Procura aqui por mim, por isso, Amor em bruto, despido, raro, incontinente, desatado, ingénuo, inclemente. Hás-de vir. Eu estou sob o sobreiro grande, do lado da fraga, o olhar sobre as casas. Surpreende-me pelo flanco exaltado por que ascendo, esse onde a Rosa e a Sombra já me tecem, secreta e lentamente.

 

2

Olhem o homem feito – probabilidade deslumbrante! Eram homens de têmpera rija que o anunciavam, estremecendo as manhãs com o meu nome. Nome poderoso, latente, irredutível porque só tinha futuro; nome gerado, fibra a fibra, pelo amor genuíno ao que se transmite. Eu crescia então dentro de mim próprio, e crescia nos outros, e crescia em todas as coisas tocadas por essa nova euforia. Euforia de ouvir dizer: olhem o homem feito! e ser olhado adultamente como objecto de vida. Entrava numa fraternidade ao mesmo tempo elementar e humana, e isso punha-me no centro de uma cosmogonia privada. Nascia para o mundo e nascia o meu mundo. Numa coerência admirável, sustentada na adequação e na necessidade. Necessidade que era, também, desejo premente de aceder, modo transitivo de mim para tudo.

 

 

II 1

Eu descendo de uma potente euforia. Misturei-me, primeiro, com a substância incessante, com a força geradora. Deixei-me correr, como as fontes, e formei o meu próprio rio íntimo. Dormi nos invernos o sono agitado dos movimentos subterrâneos. Depois, entre mim e os homens mediaram as elementares premências. Fervi nas horas todas, consumi-me em todas as fogueiras. Abriu-se, assim, um tempo delirante no meu sangue. Agora, nenhum aprumo me vence, nenhum lugar me acalma. Vibro em toda a força das obstinações, irrigo-me de sol, luar, terra molhada. Agora ancoro no fragor de futuros incertos, durmo no convés de navios que sonho, perpetuo-me de sangues que a morte não suspeita. Invento-me. Conquisto-me, derroto-me. Agora sou fulguração do meio-dia.

 

10

Eis os dias da pujança, essa primavera que rebenta com um fragor novo. Eis o prenúncio do que ferve, a girândola ofegante de todas as possibilidades. São dias monstruosos, Maios incessantes, pulsões de sangue vertiginoso. Tudo está a suceder. A alma cresce à medida de uma pureza altiva, uma pureza que não recebe ainda os recados que lhe trazem. Vagueamos pela terra acabados de nascer. Mãe extremosa, lambe-nos as babas em que nos pariu, tornando-nos dela para sempre. Mais tarde amá-la-emos também com um amor extraordinário. Agora é o seu cheiro de fêmea que nos excita; o seu bafo de animal potente, o seu ardente desejo criador, a sua primitiva substância geradora. Sob os choupos, na erva alta, ao sol de Março, mergulhando os pés nos ribeiros também jovens, caminhando, caminhando, dormindo nas sombras veladas, pisando adormecidos caminhos, plantando, refazendo, destruindo, apurando uma antiga e perene sensibilidade, rasgando a carne, ao vento, em silvedos, paredes, existindo, temendo os trovões, expondo uma nudez sem mancha, nas casas e nos distantes lugares que as reclamam, abreviando o tempo, trepando ao lugar inóspito, à arvore tremenda, saboreando a espessa névoa, os vinhos novos, a rir, cheios de palavras que são ditas a rir: eis os dias da máxima esperança, esse artifício por desocultar.

 

9

 

Quando haverá outras horas em que nada se pense, ou se espere, ou se interrogue? Quando haverá outra vez o adormecer que depende apenas da hora de dormir? Quando pousarei de novo, sem outro peso que o da minha alma e seu critério, a cabeça na terna fonte dos meus dias? Por isso te olho já com a fadiga das longas despedidas, por isso te invejo a indiferença abismal como mo dizes. E já me desespero do futuro, e já me doem feridas que não tenho, e já me atormento das negras turbações que não conheço. A fazer mundos, a desbravar espaços, a acomodar o tempo ao seu fazer-se, quando serei ainda a imagem reflectida de um deus que nasce?

 

 

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