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Poetar-te

Poetar-te

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Alumia, luz intimíssima, esta hora que une. Caminha connosco balançando ao vento, movimento entre nós e o exterior informe. Isola-nos no nosso amor completo. Não nos disperses ainda, ambiguidade tão familiar, não nos abandones, porque não crescemos o suficiente para que o abandono seja fértil. Segue-nos, ou precede-nos, pulsar compassado com que afrontamos o desconforto. Para que a silenciosa sofreguidão dos passos não colha um abismo desolado.

Alumia, luz intensíssima, o contínuo espaço onde palpita uma borboleta de sangue, a única verdade viva. Como um veneno amável, fruto que provaremos com as mãos a tremer. Circunscrita e crua realidade que partilhamos com a indiferença dos animais que já dormem. Derramada a nossos pés, luz efémera, alumia agora – e chega – essa precária harmonia.

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São as coisas que estabelecem a nossa relação com o espaço. Um cântaro. Armários. A renda de bicos. A tradição dos lugares. Isto é aparentemente banal, mas desencadeia todas as futuras memórias. Por exemplo, sempre ali esteve aquele adorno infantil sem lhe sabermos outra utilidade. Mas é a nossa âncora por vastas tormentas, adormece connosco no fim das insónias, brilha como a estrela dos serões de Agosto. E o banco da entrada. O muro. A ramada. O silencioso perfil das montanhas ao sul. O invulgar recomeço das estações. O que de ontem restou e se recorda, não porque foi ontem, mas porque inscreveu algo de nós. Por isso andamos de cor na vida, e cada perdição tem um porto de abrigo à sua espera. Orienta-nos a velha canção dos domingos, a réstia no tule da janela, o vermelho horizonte dos desejos. As mesmas coisas que depois nos hão-de abandonar, despojos fiéis de cruéis verdades.

 

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Algo, no entanto, segue o seu rumo certo. É um turbilhão, um cerco, uma intrusão a que não sabemos dar nome. Dispersa-nos, esse vento, por memórias que gostaríamos de fixar para sempre. Num fluxo descontínuo, porque se quebra com frequência na imóvel resistência que lhe opomos. Há-de ser futuramente a carta de marear com que afrontaremos toda a ausência, todas as ausências. Essa gramática privada, porque fundada na incomunicável solidão, afrontará os dias umas vezes despojada, outras exuberante, mas nunca sujeita à evidência e à comprovação. É por isso algo que não tem nome, a substância dos sonhos, a irreal respiração do mundo, a ilusão fatal com que afirmamos. Segue o seu rumo certo porque é, talvez, a mais dura das necessidades.

 

 

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5 – Agrupamo-nos à volta de um fogo único. Ali ardem comunhões definitivas, cuja proveniência conhecemos. Não sabemos ainda as labaredas geladas que tomarão conta dos nossos corações. Por enquanto há unicamente a ficção elaborada das certezas, o recente mito que será tudo. Por enquanto fingimos ser felizes com uma convicção a que não é alheia a necessidade. Entre os que estamos e aqueles que virão construímos as razões deste momento, um definitivo acervo de significados. A impossibilidade é apenas um futuro que germina. Faz-se-nos tarde. A noite arrefece. Há fumo e cheira a lenha de oliveira.

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4 – A nossa vocação é, por ora, ouvir as coisas - e não lhes dar sentido. Ouvir esses objectos comuns sem solicitar as interpretações da alma ou da razão. Dar-lhes, na memória, o seu espaço ao mesmo tempo natural e arcaico, sintetizar o seu significado numa harmonia exterior a tudo. Serem só um estar ali, uma permanência breve, um sinal de circunstância. Ouvir, apenas, os tempos agudos do silêncio, a cadência do fogo, cada sílaba da possibilidade das palavras; o sofrimento do que se prepara para nascer, a explosão cega das fragilidades futuras; o fundo e múrmure rumor do mundo. E mais que vocação, talvez seja o nosso destino.

 

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