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Poetar-te

Poetar-te

3

 

3 – Tudo está a nascer. Por toda a parte há essa precipitação concertada. Agora é a vez da casa, com as suas divisões estremes e o seu movimento de magma à superfície; agora é a pulsão do movimento, interior e circundante, feita de naturezas que pela primeira vez prenunciam os seus nomes; agora é todo o estremecimento da terra, que só ali, e connosco, faz sentido. Toma conta das horas um concerto de ciclos exactos. A manhã, a tarde e a noite conhecem a harmonia, são a sua equivalência fundadora. Minuciosamente constrói-se uma verdade, que há-de ser, no futuro, a semente da desordem. Mas ainda é cedo, tudo está por fazer.

 

2

 

2 – De par, arrastados pela casa quieta, uma dor calada e o seu suspenso silêncio, que é por nós. Os que traremos ao sono um sofrimento novo. Os que vergaremos a uma dor nova e distante, a uma inquietação em surdina. A uma plácida urdidura dos dias como se fosse a única razão. Todos os gestos são aprendidos assim, entre sonhos e a febre de saber. Há um sentimento novo, que se espalha com o cheiro das maçãs de tarde. Está a nascer, como frutos do dia, a cúmplice peregrinação pelos cantos dessa presença. O dia que só avança assim, com o nosso calor a propagar-se às coisas, aos objectos construídos pela paciente organização da noite doméstica. Tudo isto, porém, nos pode destruir sem a clara fulguração de uns olhos abertos à essencial pureza. Vale a pena, por isso, escutar os passos na madeira que range, apurados pela nossa intensa presença. Vale a pena saber a lição das palavras sensatas, sem as quais nos devolve ao mundo a loba das agruras.

 

 

I 1

1 - Abre-se o dia à tua voz. Abre-se uma porta aos teus cuidados. Os animais conhecem-te e este conforto é deles que provém. Adormeço nos teus gestos antigos, que adivinho. Algumas formas de tempo demoram-se nos passos que não dás, como se fossem suspensas carícias por fazer. Ás vezes lateja um desejo estranho de morrer. No espaço que dominas e onde não estarás um dia, que é difícil. Sei tudo isso, e que a porta dá para o espaçoso Inverno que tememos. Que ambos tememos. Mesmo assim fazes a fogueira, com as mãos duma inteligência ímpar. Acendes o lume. Abres a casa para um fogo novo. Iluminas a tua presença com as estrelas que a noite acaba de consumir – e devolve ao dia com um radioso élan de luz triunfante. Começa assim a história banal das nossas vidas. Com fulgurações, estas, e a terra toda nos teus braços de dona do meu tempo.

 

Interiores

“Somos a nossa casa e todas as velhas sombras que

a povoam”.

Teixeira de Pascoaes, O Bailado

 

 

“Falemos de casas, da morte. Casas são rosas

para cheirar muito cedo, ou à noite, quando a esperança

nos abandona para sempre.”

(...)

Herberto Helder, A Colher na Boca

 

 

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