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Poetar-te

Poetar-te

10

Num ponto ínfimo: eis o diamante intemporal. Possante. Agregador. O seu brilho entra-nos pelo sangue fora para as zonas onde a escolha não é possível. Domina. Sobrepõe-se. Transborda para as moradas onde se ocultam as ciências do mundo, abre-lhes portas insuspeitas. Ciências novas. Artes trabalhadas. Recomeça mundos devastados por apelo a uma nobreza antiga. Esta é a sua grandeza. O seu desígnio. Pressente as ávidas presenças. Enche todo o nosso espaço duma inocência fundadora. Explode, então, para fora, ilumina, aquece, incendeia. Transborda. Permanece quando invocado, quando intensamente invocado. Para depois voltar ao coração da pedra, onde, para sempre, produzirá a cintilação extrema.

...

Neste passo (falta a publicação de um texto, num total de 50), peço aos meus visitantes internautas uma opinião sobre o que poderá, um dia, tomar a forma de livro.

9

Agora, as vozes. Os gestos tão quotidianos. As presenças que pairam. 1 - Um canto, um assobio, uma palavra nova. As onomatopeias da terra, a estrita concisão. O pio, o grito, o assobio, às vezes o lancinante silêncio. O chamamento. Os nomes, poderosíssimos. A vida ciciada, os passos nocturnos, uma dor que geme. A flor dos domingos. O predicativo sangue. 2 – A faca oficiante. A cesta, símbolo pujante das húmidas alvas. A fome da vida, jamais saciada (os animais que esperam pela hora quente). As mãos súbitas, precisas, as mãos consoladoras. A revelação de uma arte ínsita, que é a arte das coisas menores. O impulso produtivo, o olhar longo, os árduos estribilhos da terra. A mão pelo rosto, o olhar para dentro. 3- A porta entreaberta aos verões antigos. O que pulsa na presença inteira, a sua decifração pelos modos de estar. O bordado paciente. As uvas que pendem. A mesa que reúne. Os signos do nosso definitivo alfabeto, que excluem o tempo.

As vozes; os gestos; as presenças: toda a simbologia é uma arte de morrer devagar.

 

 

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O apelo é fortíssimo. Vem da penumbra interior, da porta entreaberta, da pose que há-de ser a possante imagem dum amor maduro. Dum amor caldeado em distâncias incríveis. Dum amor que possui a chave para as áridas distâncias. Do próprio amor distanciado. O apelo está nas vozes tutelares: que desvendam, apaziguam, justificam; está na penumbra, na porta que agora se abre à luz definitiva; está na exposta inocência duma idade de ouro que carregamos, ainda por amor. Está na reunião dos caminhos que atravessam de lado a lado a exaltação das fontes. Esses caminhos agora desvendados. São eles a respiração vibrante da casa que nos recebe. Por isso os amamos. Porque confluem. Porque divergem. Porque sabem do nosso ofício de peregrinar. Porque, fundadores, nunca nos levam definitivamente

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As nítidas ombreiras. O risco irregular da cal, a exaltação do encontro. É neste ponto que se abre, dolorosa, a ferida crucial. É na cal contaminada. No verdete da chuva que se impregna e escorre. Lentamente, o verdete, o fungo nas madeiras nobres. Nas almas acossadas. Já houve aqui auroras permanentes que não souberam permanecer. Já houve aqui silêncios como os da terra, fundos e cheios de significado. Já houve admiráveis vozes que diziam tudo, mesmo o indizível que nos serviu de alimento comum. Já houve radicais belezas a passar pelos rostos, altares de alegria, rosas madrugadoras, festões de luz imaculada. A pedra exausta guarda ainda a presença dessas horas felizes. Num ponto ínfimo e descontaminado. Apesar da cal dolorosa, do verdete da chuva, das almas onde a evidência corrói toda a fundada esperança.

6

Começa agora a apropriação das fórmulas (o mito requer, aliás, a fórmula pura, é o momento expurgatório das outras verdades). Um pronome repete à exaustão o agudo momento da perda. Revisitamos o mundo com o olhar para dentro – e é dolorosa a apropriação alheia dos espaços reservados. Afinal, há caminhos inversos que nos esperavam há muito.

Começa agora a apropriação equívoca das fontes. A palavra, o momento, a grata recordação reservam-se para uma exposição que é mundana, e fere. As nossas almas reclamam o salário de um amor profundo, quantas vezes à distância de uma estranha renúncia – e as letras desse alfabeto maldito são o lume onde ardem as palavras antigas.

4

E há as paredes. Cegas. Maciças. Asfixiam. Contra a cal. Geram o poderoso impulso da liberdade. Quebramos contra elas cristais momentâneos. Babam-nos de feroz salitre, de impotência surda. Confundem-nos porque não explicam. Não abrem. São sugestivas para dentro, num sentido concêntrico. Impedem os outros lugares. Sugerem-nos, com a resistência bruta que lhes opõem. Aqui só a liberdade. Contra elas só a liberdade. Só o pensamento alodialmente feroz. Livre e feroz, bruto e feroz, tomado da ferociddae que arranca luz dos medos fundos. Aqui só a inteira humanidade que se alimenta do sangue fundador. Contra elas opomos caminhos abertos a pulso pela humanidade e pela liberdade. Pela condição primeira do pacto ôntico, pela humana sujeição ao sopro criador. Fazem-nos, as paredes. Cegas. Maciças. Impedem. Fundam, paradoxais, a liberdade.

3

Abre-se, pois, essa flor conjuntiva. Procura os lugares onde a vigorosa pulsão da vida cria sóis instantâneos. Um é junto ao lume, compreende o alimento, o fogo, as harmonias. É onde ferve a água lustral das comunhões, onde o antes e o depois são confinantes, onde a presença é um ouro preservado. Outro, conduz ao íntimo da casa, à secreta, lenta, permanente fábrica dos sonhos, ao labor uterino da vida. Fecha-nos. Remete as distâncias para a mera geografia da matéria, porque  impede e circunscreve. E porque, pacientemente, lapida no sangue o diamante intemporal. Antes, outro ainda, é o lugar desencontrado das premências. É onde rui, definitivamente, o dique das emoções, onde desaba toda a sofreguidão das torrentes. É um lugar que remete e antecipa, que mílímetro a milímetro nos devolverá a identidade inteira. Aí, mais tarde, sob um céu de ramas ancestrais, serão as palavras o selo que se quebra.

2

A jarra é de sécias dessa manhã. Ainda tocadas pelo halo quente da noite. Ainda virgens, ainda indecifráveis, ainda encharcadas de orvalho e vagar. Elas centram o mundo, dispõem-no para o que chega em coordenadas puras, assim definindo os domínios consagrados. Agora é tudo para dentro. O dom da palavra é para dentro. A fabulosa interacção do sangue, a explicação dos sítios, os passos medidos, o núcleo primitivo, são para dentro. Alguém há-de cantar. Dentro do silêncio.

Uma a uma as portas fecham-se. Delimitam do espaço interior o caminho que finda. A sua função congregadora é-nos familiar e propícia. Abrem para dentro. Preservam. Recriam o nosso íntimo universo, de cujo centro parte a luz irradiante.

 

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